segunda-feira, 26 de março de 2018

PEDE-SE A UMA CRIANÇA: DESENHA UMA FLOR!


PEDE-SE A UMA CRIANÇA: DESENHA UMA FLOR!

Pede-se a uma criança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.
Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu.
Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.
Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor!
As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!
Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!
   
Almada Negreiros
Lido por Alzira Santos e Mário Dinis

ADMITO


ADMITO

Admito,
não estava na luta,
gritando na praça pública,
contra os cortes dos subsídios
de férias e de Natal!
Admito,
não me revoltei,
ouvindo o discurso
do nosso Primeiro Ministro,
achando que a dor de um povo,
era uma  triste pieguice!
Não disse basta
perante aumentos generalizados,
dos bens básicos!
Admito,
não fiz greve
quando baixaram os salários,
quando reduziram ajudas,
à miséria envergonhada!
Admito,
não acompanhei a marcha
dos indignados!
Estava já tão fraca,
desiludida, aturdida!
Admito,
estando eu exangue
quando nos chuparam
com colossais impostos,
não desci as escadas,
tão fracas estavam as pernas,
para lhes atirar pedras,
e morri,
fazendo um grande favor
a mim
e ao país,
que de cobardes está farto!

Maria Olinda Sol
Lido por Agostinho Costa

CONTRA AS COISAS REDONDAS


CONTRA AS COISAS REDONDAS

Amamos as coisas redondas e pensamos
que vão ser eternas amáveis e perfeitas:
a toranja debaixo do rotundo sol de agosto,
a pulseira que orbita em volta do pulso,
a moeda com duas faces e nenhuma cruz,
a bola de praia em cujo interior que ainda se respira
um ar paciente de mil novecentos e oitenta e dois.

Há dias redondos em que tudo se encaixa
e a vida parece andar sobre rodas:
alguém, de lixa na mão, encarregou-se
de subtrair ao mundo todas as esquinas,
todas as arestas, todas as bordas.

Mas basta que atravesses um declive
ou que tudo se volte, de repente, para cima,
para verificar que são as coisas redondas
as primeiras a sair e a começar a correr:
a toranja, a pulseira, a moeda e a bola.

Eu recuso-me redondamente a aceitar tais desplantes.
Às formas esféricas eu oponho as coisas informes.
Escolho as imperfeitas, as imprecisas, as irregulares.
Aquelas cheias de defeitos, amolgadelas ou dobras.
Bonitas e originais, sem se sujeitarem a nenhum centro,
só elas permanecem e nos acompanham sempre.

Jesus Jimenez Domínguez
in “Ensinar o Eco a Falar”
Manuela Caldeira

DISCURSO


"DISCURSO"

E pelas pessoas que passam
as avenidas do progresso
Perante a escuridão tu praguejas
Outros acendem   luz.
Derrubar monstros sagrados
Velhos séculos.
E, em termos humanos,
É cretina a reprovação.
Testes exames e desenvolvimento
Não criam autenticidade.
Os valores da sociedade são novos
Traça
Tu
Nova
Visão.

AFIFE. 12.10.94
Luís Pedro Viana

QUANDO EU MORRER...


QUANDO EU MORRER...

Quando eu morrer não digas que eu morri
Fecha a janela do quarto
E se perguntarem por mim
Diz que eu fui aos jardins de Ispãa
Buscar rosas para meu perfumar
Diz também que fui buscar lírios
Para perfumar meu eu
Ansiando seu pleno estar...

Não chores a minha entrega ao rendilhado do luar
Nem cubras de beijos o que de mim há-de restar…
Pensa apenas que sou aquela que achou
Que o mundo não tinha seu lugar
Aquela que havia querido moldado
Em pérolas de jade
O mundo tosco e maculado
Aquela que quis vestir as estrelas de carmim
A que ansiou a palavra sempre moldada...

Abre a janela do quarto
E deixa a serenidade do luar
Cobrir meu corpo sem véu
Quero levar comigo o que há-de perfumar
Para quando de novo ressurgir
Construir-me na harmonia
Que em mim mantive guardada...

Depois lentamente
Como se o Tempo se prendesse
No fio do seu enlear
Veste-me em leveza
Pensando que quis
Nos Jardins de Ispâa
Sempre morar...

Acilda Almeida

DE TI!!!!


DE TI!!!!

De ti vem meu alento
Minha força de viver
Minha dor meu sofrimento
Que só tu me fazes esquecer
De ti vem meu alento
E uma forma de amar
Abres meu pensamento
Para à vida regressar
De uma forma diferente
Foste meu despertar
De ti vem meu alento
E nova forma de estar…

Celso Miranda 

sábado, 24 de março de 2018

AMIGO, SINTO-TE TRISTE



AMIGO, SINTO-TE TRISTE

Tu sabes que,
se nas horas de solidão,
a tristeza te invadir...
a minha mão afagar-te-á o rosto,
meu ombro será almofada onde repousarás tua cabeça,
meus lábios secarão as lágrimas que teimem fugir,
abraçar-te-ei até que acalmes os soluços que tentas reprimir.
Chora.
Deixa correr esse rio que há tanto tempo acorrentas,
e que quer soltar-se.
Molha meu colo.
Não me importo.
O sol vai voltar.
Secará meu regaço.
Fará brilhar de novo teu olhar.
Teus lábios vão voltar a esboçar aquele sorriso de outrora.
Estou aqui.
Tu sabes.
Sente o calor do meu abraço...
 ... quem sabe teu coração para de sangrar...
Meu amigo querido...
Só não quero sentir-te tão triste...
Se eu puder ajudar...
... Deixa-me ajudar...

Alice Santos
in “Coletanêa Galeria Vieira Portuense 2017”
Lido por Maria de Lourdes Ferreira

CARTA DE UM CONTRATADO



CARTA DE UM CONTRATADO

Eu queria escrever-te uma carta 
amor 
uma carta que dissesse 
deste anseio 
de te ver 
deste receio de te perder 
deste mais que bem querer que sinto 
deste mal indefinido que me persegue 
desta saudade a que vivo todo entregue...
Eu queria escrever-te uma cara  
amor 
uma carta de confidências íntimas 
uma carta de lembranças de ti 
de ti 
dos teus lábios vermelhos como tacula 
dos teus cabelos negros como dilôa 
dos teus olhos doces como macongue 
dos teus seios duros como maboque 
do teu andar de onça 
e dos teus carinhos 
que maiores não encontrei por aí...

Eu queria escrever-te uma carta 
amor 
que recordasse nossos dias na capôpa 
nossas noites perdidas no capim 
que recordasse a sombra que nos caía dos jambos 
o luar que se coava das palmeiras sem fim 
que recordasse a loucura 
da nossa paixão 
e a amargura nossa separação...

Eu queria escrever-te uma carta 
amor 
que a não lesses sem suspirar 
que a escondesses de papai Bombo 
que a sonegasses a mamãe Kieza 
que a relesses sem a frieza 
do esquecimento 
uma carta que em todo Kilombo 
outra a ela não tivesse merecimento...

Eu queria escrever-te uma carta 
amor 
uma carta que te levasse o vento que passa 
uma carta que os cajus e cafeeiros 
que as hienas e palancas 
que os jacarés e bagres 
pudessem entender 
para que se o vento a perdesse no caminho 
os bichos e plantas 
compadecidos de nosso pungente sofrer 
de canto em canto 
de lamento em lamento 
de farfalhar em farfalhar 
te levasse puras e quentes 
as palavras ardentes 
as palavras magoadas da minha carta 
que eu queria escrever-te amor...

Eu queria escrever-te uma carta... 
Mas ah meu amor, eu não sei compreender 
por que é, por que é, por que é, meu bem  
que tu não sabes ler 
e eu - Oh! Desespero - não sei escrever também!

António Jacinto
Declamado por Fernanda Cardoso

PASTELARIA



PASTELARIA

Afinal o que importa não é a literatura,
nem a crítica de arte, nem a câmara escura.
Afinal o que importa não é bem o negócio,
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio.
Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante!
Afinal o que importa é não ter medo:
fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício.
Não é verdade, rapaz? E amanhã há bola,
antes de haver cinema, madame blanche e parola.

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim – ainda há muita gente que come.
Que afinal o que importa é não ter medo de chamar o gerente e dizer
muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora - ah, lá fora! - rir de tudo,
No riso admirável de quem sabe e gosta ter lavados – e muitos –
dentes brancos à mostra

Mário Cesariny
Lito por João Pedro Pereira (11 anos)

ODE MARÍTIMA COM TERRA À VISTA



ODE MARÍTIMA COM TERRA À VISTA

Um mar encheu e esvaziou-se esta noite.
Não foi uma maré prevista; não foi um engano da lua.
Um mar subiu quando o chamei,
e desceu quando não lhe abri a porta.
Vi-o rebentar as ondas contra a fechadura,
como se quisesse rodar a chave com a espuma.

Mandei-o embora,
disse-lhe que me tinha enganado quando o chamei;
e ele fazia levantar as gaivotas de todos os seus rochedos,
e obrigava-as a voar em roda do patamar,
para que as suas asas batessem nas paredes.

Pedi-lhe que me deixasse;
e ele obrigava o vento a soprar,
para que o seu sopro entrasse pelas frinchas da porta,
e impregnasse de maresia toda a casa.
Falei-lhe do horizonte, para que me deixasse;
e ele empurrava barcos contra as janelas,
como se isso me levasse atrás das suas velas.

Tranquei todas as portas da casa;
desci os estores; apaguei as luzes.
O mar acalmou, por fim.
Ouvi-o descer as escadas,
e deixar um areal na rua da frente.

De manhã, quando saí de casa,
as gaivotas dormiam;
Não se ouvia nenhum vento;
os barcos naufragados estendiam-se pela rua;
o sol secava a espuma ao longo dos prédios.

Enterrei os pés na areia, como se estivesse na praia,
E atravessei a rua
como se entrasse no mar.


Nuno Júdice
in “A Matéria do Poema”
Lido por Armando Pereira

MEUS AMORES "INTEMPORAIS!"



MEUS AMORES "INTEMPORAIS!"
(A recordar... os meus Amores: Irmãs e Pais)

Eu fico a sonhar... e a recordar,
"Os passeios junto ao Mar!
Naquele tempo de criança,
Aos domingos, na época de bonança".

"Aqueles passeios no cais"
Com as minhas Irmãs e os meus Pais!
Meus AMORES "intemporais!"

Docemente... eu fico a recordar,
"Como um sonho… que não quero acabar!"
E neste sonhar... eu fico a recordar,
"O Céu azul a abraçar...
A estrela Sol e o Mar!"

E neste sonhar... eu fico a recordar,
"As ondas do Mar!
Que no vai e vem a ondular...
A areia vão cortejar e beijar!"

E neste sonhar... eu fico a recordar,
"As ondas serenas e revoltas,
Cada uma, matizada em espuma prateada,
De cores esverdeada, azulada!"

E neste sonhar... eu fico a recordar,
"As gaivotas a voar,
Estavam a festejar...
Toda a beleza do Céu e do Mar!"

Eu fico a sonhar... e a recordar,
"Esse tempo de criança,
Nesses domingos, na época de bonança".

Eu fico a sonhar... e a recordar,
"Os passeios junto ao Mar!
"Aqueles passeios no cais"
Com as minhas Irmãs e os meus Pais!
Meus AMORES "intemporais!"

Helena Duarte
in “Luz…na Voz do Pensamento”

sexta-feira, 23 de março de 2018

FADO FALADO



FADO FALADO

Fado Triste
Fado negro das vielas
Onde a noite quando passa
Leva mais tempo a passar
Ouve-se a voz
Voz inspirada de uma raça
Que mundo em fora nos levou
Pelo azul do mar
Se o fado se canta e chora
Também se pode falar

Mãos doloridas na guitarra
que desgarra dor bizarra
Mãos insofridas, mãos plangentes
Mãos frementes e impacientes
Mãos desoladas e sombrias
Desgraçadas, doentias
Quando à traição, ciúme e morte
E um coração a bater forte

Uma história bem singela
Bairro antigo, uma viela
Um marinheiro gingão
E a Emília cigarreira
Que ainda tinha mais virtude
Que a própria Rosa Maria
Em dia de procissão
Da Senhora da Saúde

Os beijos que ele lhe dava
Trazia-os ele de longe
Trazia-os ele do mar
Eram bravios e salgados
E ao regressar à tardinha
O mulherio tagarela
De todo o bairro de Alfama
Cochichava em segredinho
Que os sapatos dele e dela
Dormiam muito juntinhos
Debaixo da mesma cama

Pela janela da Emília
Entrava a lua
E a guitarra
À esquina de uma rua gemia,
Dolente a soluçar.
E lá em casa:

Mãos amorosas na guitarra
Que desgarra dor bizarra
Mãos frementes de desejo
Impacientes como um beijo
Mãos de fado, de pecado
A guitarra a afagar
Como um corpo de mulher
Para o despir e para o beijar

Mas um dia,
Mas um dia santo Deus, ele não veio
Ela espera olhando a lua, meu Deus
Que sofrer aquele
O luar bate nas casas
O luar bate na rua
Mas não marca a sombra dele
Procurou como doida
E ao voltar da esquina
Viu ele acompanhado
Com outra ao lado, de braço dado
Gingão, feliz, levião
Um ar fadista e bizarro
Um cravo atrás da orelha
E preso à boca vermelha
O que resta de um cigarro
Lume e cinza na viela,
Ela vê, que homem aquele
O lume no peito dela
A cinza no olhar dele

E o ciúme chegou como lume
Queimou, o seu peito a sangrar
Foi como vento que veio
Labareda atear, a fogueira aumentar
Foi a visão infernal
A imagem do mal que no bairro surgiu
Foi o amor que jurou
Que jurou e mentiu
Correm vertigens num grito
Direito ou maldito que há-de perder
Puxa a navalha, canalha
Não há quem te valha
Tu tens de morrer
Há alarido na viela
Que mulher aquela
Que paixão a sua
E cai um corpo sangrando
Nas pedras da rua

Mãos carinhosas, generosas
Que não conhecem o rancor
Mãos que o fado compreendem
e entendem sua dor
Mãos que não mentem
Quando sentem
Outras mãos para acarinhar
Mãos que brigam, que castigam
Mas que sabem perdoar

E pouco a pouco o amor regressou
Como lume queimou
Essas bocas febris
Foi um amor que voltou
E a desgraça trocou
Para ser mais feliz
Foi uma luz renascida
Um sonho, uma vida
De novo a surgir
Foi um amor que voltou
Que voltou a sorrir

Há gargalhadas no ar
E o sol a vibrar
Tem gritos de cor
Há alegria na viela
E em cada janela
Renasce uma flor
Veio o perdão e depois
Felizes os dois
Lá vão lado a lado
E digam lá se pode ou não
Falar-se o fado.

João Villaret
Declamado por Duarte Luz